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Fraude em Audiência Pública de Perus: Moradores Denunciam Recrutamento de Falsos Participantes para Incinerador

Manipulação democrática marcou audiência pública em Perus, São Paulo. Moradores do bairro denunciam que pessoas recrutadas de fora do território foram trazidas em ônibus para lotarem o espaço, impedindo que a comunidade local participasse do debate sobre a implantação de uma Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, projeto de incineração de resíduos.

A suspeita central é de que houve recrutamento organizado de indivíduos externos, estratégia que visa desarticular a mobilização comunitária contrária ao empreendimento. Um participante contatado pela reportagem confirmou ter recebido compensação financeira para comparecer como se fosse residente de Perus, revelando um esquema de manipulação que se estende além do simples preenchimento de assentos.

Conforme investigação realizada, ônibus estacionaram em frente ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, no bairro Vila Fanton, no início da tarde de segunda-feira (1º de abril). Os passageiros, desconhecidos pela população local, formaram filas estratégicas antes dos moradores reais, lotando o teatro da unidade. Simultaneamente, inscreveram-se para discursar, bloqueando o acesso ao microfone para críticas genuínas ao projeto.

Um coordenador foi identificado orientando os recrutados sobre quais reações manifestar em cada momento da audiência, sinalizando concordância ou desaprovação conforme instruções pré-estabelecidas. Essa estruturação revela um nível sofisticado de manipulação do processo democrático, transformando a consulta pública em encenação.

Com a capacidade máxima do teatro atingida, aproximadamente 500 moradores genuínos de Perus foram impedidos de entrar. A administração municipal e estadual instalou dois televisores no saguão de entrada, mas mesmo assim o espaço não comportou todos. Muitos ficaram aguardando sob chuva, incluindo crianças, enquanto agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) permaneciam armados com escudos e gás de pimenta, proibindo até mesmo a fala de vereadores.

Mario Bortoto, engenheiro químico e liderança do movimento de resistência, destaca que consultas populares são direito garantido por lei. Ele argumenta que a forma como foi conduzida justifica a realização de uma audiência organizada pelos próprios moradores. O especialista aponta que o incinerador é considerado tecnologia ultrapassada em outras regiões do mundo, gerando preocupações com cinzas tóxicas e o intenso fluxo de caminhões que circulará pela região.

Bortoto ressalta que a prefeitura carece de capacidade de fiscalização adequada para garantir que os parâmetros ambientais sejam mantidos. Além disso, a aprovação do projeto agravaria problemas de saúde em uma população já carente de atendimento médico suficiente. A região de Perus enfrenta vazio assistencial crônico, com médicos relutantes em trabalhar na periferia por questões de segurança e distância, combinado com déficits em moradia, educação e equipamentos culturais.

Thais Santos, química, consultora da WWF Brasil e articuladora comunitária, acompanha as mobilizações desde a adolescência. Seu doutorado em Bioenergia foi pensado estrategicamente para servir aos pares. Ela lamenta que a audiência, que deveria ser espaço democrático, transformou-se em manipulação de informação. Critica também que o horário coincidiu com o expediente da classe trabalhadora, dificultando participação genuína.

Como alternativa ao incinerador, moradores e ativistas ambientais propõem transformar a área em Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera. O modelo já está sendo desenvolvido através de uma agência de turismo fundada pela comunidade, que valoriza a relação com a natureza e rejeita lógicas predatórias, mantendo a resistência política que caracteriza o lugar.

Perus carrega histórico de estigmatização pela Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, usada para ocultar corpos de perseguidos políticos durante a ditadura iniciada em 1964, e pela proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, notório pelas violações de direitos humanos. Dados do Mapa da Desigualdade de São Paulo (2024-2025) indicam expectativa de vida de apenas 62 anos no distrito, enquanto ostenta o 5º lugar em cobertura vegetal e o 6º em emissão de poluentes atmosféricos por área.

A comunidade já enfrentou pressões para aceitar diversos empreendimentos similares. Em 1979, foi inaugurado o aterro sanitário Bandeirantes, de 140 hectares, que permaneceu ativo por 28 anos recebendo entre 35 e 40 milhões de toneladas de resíduos. No início dos anos 2000, houve tentativa de implantação de aterro sanitário na Chácara Maria Trindade, no distrito vizinho de Anhanguera.


Destaques do Conhecimento

  • Moradores de Perus denunciam recrutamento de falsos participantes para manipular audiência pública sobre incinerador
  • Aproximadamente 500 moradores genuínos foram impedidos de participar do debate democrático
  • Engenheiro químico Mario Bortoto alerta que a tecnologia de incineração é ultrapassada e gerará problemas de saúde
  • Comunidade propõe transformar a área em Território de Interesse de Cultura e Paisagem como alternativa
  • Perus enfrenta vazio assistencial de saúde, moradia inadequada e déficit de equipamentos culturais
  • Expectativa de vida no distrito é de apenas 62 anos, conforme Mapa da Desigualdade de São Paulo

Conteúdo adaptado e reescrito originalmente a partir de reportagem da Agência Brasil. Publicado em 02 de abril de 2026.