Operação da Polícia Civil mira ONG ligada a produtora de filme sobre Bolsonaro por suspeita de desvio de R$ 26 milhões em contrato de wi-fi com a Prefeitura de SP. Investigação aponta fraude em contrato que deveria beneficiar comunidades periféricas, incluindo regiões da Zona Noroeste.
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou operação nesta segunda-feira (1º) contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização social que pertence à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse” sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A investigação apura possível desvio de recursos públicos em um contrato inicialmente avaliado em R$ 108 milhões para instalação de 5 mil pontos de wi-fi gratuito na periferia paulista. Segundo a Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (DICCA), o valor foi ampliado para R$ 157,1 milhões através de aditivos assinados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Até o momento, apenas 3.200 pontos foram instalados, quando o cronograma original previa a conclusão de 5 mil até junho de 2025. A polícia cumpriu sete mandados de busca e apreensão, recolhendo computadores, celulares, documentos e notas fiscais na Prefeitura e na ONG.
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A investigação aponta que a ONG cobrava valores acima do mercado. Enquanto a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia, prestava serviços idênticos por R$ 230 de implantação e R$ 306 de manutenção mensal por ponto, o Instituto Conhecer Brasil cobrava R$ 1.800 mensais por ponto instalado.
Segundo o inquérito, a Secretaria de Inovação e Tecnologia repassou à ONG valores mensais sem a devida instalação dos pontos nos primeiros meses. Em julho e agosto de 2024, foram transferidos mais de R$ 11 milhões relativos a 3.200 pontos quando apenas seis funcionavam no período.
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A reportagem do G1 identificou que a ONG utilizou ao menos R$ 4 milhões em notas fiscais canceladas ou emitidas para si própria para justificar despesas. Uma nota fiscal de R$ 2 milhões da empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., emitida em novembro de 2025, foi cancelada no mesmo dia de sua emissão, mas ainda assim incluída na prestação de contas apresentada em fevereiro de 2026.
O proprietário da Complexsys é o empresário André Feldman, que aparece em fotografias ao lado de Karina Gama nas redes sociais. A empresa foi responsável por instalar mais de 900 pontos nas favelas da cidade.
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A ONG também emitiu notas para si própria, como se tivesse prestado serviços para si mesma. Levantamento identificou ao menos três notas nesta situação, somando mais de R$ 1,4 milhão, todas justificando gastos do projeto de wi-fi.
Um parecer da Secretaria de Tecnologia da Prefeitura, datado de 26 de fevereiro de 2026, apontou que o instituto não poderia emitir notas para si próprio e tampouco devolveu os valores irregulares. O documento também identificou pelo menos R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade.
A investigação também apurou possível utilização de valores do contrato público para financiamento da produção cinematográfica vinculada a Karina Gama. A promotora Marina Pedersolli menciona suspeitas de “pulverização dos recursos públicos por meio de subcontratações com empresas privadas”.
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Karina Gama também mantém relações políticas com aliados do ex-presidente. Em 2022, prestou serviços de consultoria para a campanha a deputado de Mário Frias (PL), recebendo R$ 54 mil. O deputado posteriormente destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares para o Instituto Conhecer Brasil, transação que está sob investigação no Supremo Tribunal Federal por falta de transparência.
A investigação também identificou um contrato de R$ 12 milhões com a empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., cujo dono é o empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, preso desde fevereiro acusado de feminicídio. No primeiro contrato, o nome do empresário aparecia apenas como “Alex”, sem sobrenome, CPF ou identidade.
Em conversa com o G1, Karina afirmou desconhecer as notas mencionadas e que os problemas nas notas fiscais do próprio instituto foram apontados por ela e “já estão sendo resolvidos na prestação de contas”. Ela também levantou a hipótese de o contrato com a Favela Conectada ter sido fraudado.
A Prefeitura de São Paulo declarou que colabora com as investigações e que o programa funciona normalmente na cidade. A gestão Nunes afirmou que “não constatamos nada de irregular no processo” e que toda a prestação de contas está disponível no sistema SEI, de acesso público.
O Ministério Público também investiga os contratos em duas frentes: na Promotoria Patrimonial e na Criminal. A investigação apura possível direcionamento do chamamento público, ausência de capacidade técnica da entidade contratada, suposto sobrepreço nos valores pagos, antecipação de repasses públicos e pagamentos por serviços supostamente não executados.
Destaques do Conhecimento
- Operação da Polícia Civil cumpre sete mandados contra ONG ligada a produtora de filme sobre Bolsonaro por suspeita de desvio de R$ 26 milhões
- Contrato de wi-fi com a Prefeitura foi ampliado de R$ 108 milhões para R$ 157,1 milhões, mas apenas 3.200 dos 5 mil pontos foram instalados
- ONG utilizou notas fiscais canceladas e emitidas para si própria para justificar despesas de R$ 4 milhões
- Valores cobrados pela ONG estavam acima do mercado: R$ 1.800 mensais por ponto contra R$ 306 da empresa pública municipal
- Investigação apura possível utilização de recursos públicos para financiamento de produção cinematográfica
- Deputado Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas para a ONG, transação sob investigação no STF
Fonte original: G1 São Paulo | Adaptação: Equipe Perus Online







































