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Audiência Pública em Perus: Denúncias de Manipulação em Votação sobre Incinerador

Audiência Pública em Perus: Denúncias de Manipulação em Votação sobre Incinerador

Moradores da zona noroeste de São Paulo, especificamente do bairro de Perus, levantaram acusações graves durante uma audiência pública realizada na terça-feira (31 de março). Segundo relatos, indivíduos de outras localidades da capital paulista teriam sido transportados em ônibus fretados e remunerados para manifestar apoio à construção de uma unidade de recuperação energética (incinerador) no local.

A denúncia ganhou força quando vídeos compartilhados com a imprensa mostraram veículos chegando ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, onde ocorreu o debate. Testemunhas afirmam que os participantes pagos utilizavam pulseiras de identificação e ocupavam grande parte do auditório, impedindo que residentes locais pudessem entrar no espaço.

Um morador que reside em Perus há mais de 40 anos, professor Márcio Bezerra, descreveu a situação como semelhante a um programa de auditório televisivo. Ele observou que uma pessoa na entrada do CEU liberava grupos pequenos de cinco a seis indivíduos com pulseiras, permitindo que passassem à frente de quem aguardava desde o início do dia. O professor ressaltou que nenhum deles era residente das áreas que sofreriam impacto direto do projeto.

Um dos participantes que recebeu pagamento confirmou à imprensa, sob anonimato, ter recebido R$ 190 pelo serviço, mais R$ 20 adicionais para alimentação. Ele revelou que soube da oportunidade através de grupos de WhatsApp, onde a vaga foi anunciada como “figuração” em um evento público. Os contratados desconheciam detalhes sobre o que seria discutido.

As instruções iniciais enviadas via mensagem indicavam: “Será necessário aplaudir, vaiar, se manifestar conforme orientação no local”. Os participantes receberam um vídeo institucional da Loga, empresa responsável pelo projeto, com conteúdo promocional. A mensagem acompanhante dizia: “Galera, vejam esse vídeo. É o que vamos estar a favor”.

O participante entrevistado afirmou que os detalhes sobre o evento só foram revelados quando já estavam no local. Segundo ele, o grupo embarcou em ônibus fretados na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, e foi levado até Perus. O pagamento foi realizado em espécie após o encerramento da audiência. “Se a gente soubesse o que era aquilo a gente não ia apoiar”, declarou o homem.

As mensagens com as orientações foram enviadas por uma mulher identificada como Alessandra Paranhos em um grupo de WhatsApp denominado “Figuração”, criado especificamente para este “trabalho”. Quando contatada pela imprensa na quarta-feira (1º de abril), Alessandra recusou conceder entrevista, negou ter contratado qualquer pessoa e desligou o telefone quando questionada sobre sua função como administradora do grupo.

A reportagem tentou contato com outros administradores do grupo. Dois negaram ter contratado figurantes para a audiência. Um terceiro não atendeu. O grupo foi posteriormente desativado e removido.

Destaques do Conhecimento

  • Moradores de Perus denunciam contratação de figurantes pagos para apoiar incinerador em audiência pública
  • Participantes receberam entre R$ 190 e R$ 210 para comparecer e manifestar apoio ao projeto
  • Indivíduos foram transportados em ônibus fretados da Barra Funda até o bairro de Perus
  • Instruções incluíam orientações para aplaudir, vaiar e se manifestar conforme direcionamento local
  • Vereadores solicitam investigação e possível nulidade da audiência ao Ministério Público
  • Empresa Loga nega contratação de figurantes e afirma participação foi espontânea
  • Prefeitura de São Paulo reforça importância da participação popular no processo de licenciamento

Investigação e Repercussão Política

Os vereadores Nabil Bonduki (PT) e Amanda Paschoal (PSol) solicitaram investigação sobre o caso. A parlamentar do PSol encaminhou representação ao Ministério Público estadual, argumentando que a prática observada “configura manipulação da participação popular”.

Na representação, a vereadora afirma que “a audiência pública foi viciada, irregular, com problema de integridade e lisura, uma vez que os grupos organizados pela empresa interessada, mediante pagamento de voto, ingressaram previamente no local da audiência, ocupando a totalidade ou a maior parte da capacidade do espaço”.

Amanda Paschoal solicita que uma nova audiência seja marcada, que a primeira seja considerada nula e que o Ministério Público adote “providências cabíveis para responsabilização administrativa e civil” caso seja constatado o comprometimento do processo participativo.

O vereador petista publicou vídeo nas redes sociais sobre a situação, afirmando: “Pessoas que não sabiam nem onde eles estavam indo, nem o que estariam defendendo, foram lá ocupar espaço para evitar que as pessoas que queriam se manifestar pudessem entrar na reunião”.

A reportagem questionou se a prefeitura marcará nova audiência para debater o incinerador, mas não recebeu resposta até a publicação do texto. O espaço permanece aberto para futuras discussões.

Posicionamento das Instituições

A empresa Loga, principal beneficiária do apoio ao projeto, nega ter contratado figurantes ou realizado “qualquer tipo de pagamento para participação na audiência pública”. A empresa esclarece que realizou “ações prévias de comunicação e educação ambiental na região, com o objetivo de informar e estimular a participação da população”.

Segundo a Loga, “a presença do público ocorreu de forma espontânea, respeitando o acesso por ordem de chegada e o limite de capacidade do local, em conformidade com as normas de segurança e rito do licenciamento”.

A empresa também esclarece que as Unidades de Recuperação Energética (UREs) “não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980. Trata-se de instalações modernas, que não oferecem riscos à saúde da população e são amplamente utilizadas, inclusive em áreas residenciais, em diversos países”.

A Prefeitura de São Paulo informou que o incinerador “integrará o Ecoparque Bandeirantes e tem como objetivo reduzir o volume de resíduos destinados a aterros, gerar energia, criar empregos e ampliar a proteção ambiental”.

A administração municipal destaca que a “URE Bandeirantes terá capacidade para receber até mil toneladas de resíduos por dia, possibilitando a recuperação de cerca de 64% do material e a destinação de aproximadamente 36% a aterro sanitário externo”.

A SP Regula reforça “a importância da participação popular neste processo” e informa que a audiência pública realizada no dia 31 de março “teve como objetivo apresentar à população o projeto, além de tirar dúvidas e colher contribuições acerca do processo de licenciamento ambiental pela Cetesb”.

Durante a reunião, “houve uma manifestação na área externa do Centro Educacional Unificado em Perus, onde a Guarda Civil Metropolitana (GCM) foi acionada. A situação foi controlada na sequência sem a necessidade de uso de equipamentos de menor potencial ofensivo”.


Conteúdo adaptado e reescrito para Perus Online. Fonte original: Metrópoles. Imagem: Reprodução / movimento Incinerador de Lixo em Perus, não