Vítimas de abuso sexual por religiosos cobram ação efetiva da Igreja Católica. Carta aberta apresentada à CNBB durante assembleia em Aparecida denuncia casos de negligência e revitimização de denunciantes.
Uma pesquisa do Instituto IDEIA revela que uma em cada seis pessoas conhece alguém que sofreu violência sexual cometida por líder religioso. Durante a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada no fim de abril em Aparecida, no interior de São Paulo, vítimas apresentaram carta aberta denunciando a falta de enfrentamento institucional aos abusos que atravessam diferentes níveis da hierarquia sacerdotal.

O documento, escrito por uma vítima em nome de outras, questiona a postura da Igreja: “Não há neutralidade possível quando a dor das vítimas é deslocada, relativizada ou tratada como secundária.” A carta enfatiza que o silêncio institucional não é falha de comunicação, mas decisão concreta que carrega peso moral e histórico.
Os bispos presentes na assembleia já tiveram contato direto com denunciantes, mas em alguns casos responderam com silêncio, distanciamento institucional ou respostas que aprofundaram a dor das vítimas. A correspondência define essa omissão como “fragilidade pastoral” e “crise de credibilidade”.
Um dos casos que motivou a carta envolve o bispo alemão Dom Frei Bernardo Johannes Bahlmann, da diocese de Óbidos, no Pará. Contra ele há acusações de abuso sexual, de autoridade, intimidação e acobertamento. Segundo relatos, as denúncias vêm sendo abafadas internamente. A organização Eckiger Tisch, que representa vítimas de violência sexual no contexto da Igreja Católica, aponta que Bahlmann teria atuado protegendo o arcebispo emérito de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa, para obstruir investigação interna.
Dom Alberto foi acusado de assédio moral e sexual por quatro ex-seminaristas que frequentaram sua residência entre 2010 e 2014. O caso se tornou público em dezembro de 2020, mas o processo foi encerrado em novembro de 2022 após sentença definitiva pela Sé Apostólica. Na época, quase 40 entidades assinaram nota pública recomendando seu afastamento imediato.
A carta destaca que não se trata de casos isolados, mas de “realidade que insiste em não ser plenamente enfrentada”. O documento conclui: “Não há futuro possível para uma Igreja que ainda não enfrentou plenamente a verdade das suas próprias vítimas”.
Procurada pelo Metrópoles, a CNBB não se manifestou sobre a carta nem sobre os casos de abuso. A Diocese de Óbidos, a Arquidiocese de Belém do Pará e os bispos mencionados também não se pronunciaram.
Destaques do Conhecimento
- Uma em cada seis pessoas conhece vítima de violência sexual cometida por líder religioso, segundo Instituto IDEIA
- Carta aberta de vítimas denuncia omissão da CNBB e revitimização de denunciantes pela hierarquia católica
- Casos envolvem Dom Frei Bernardo Johannes Bahlmann (Óbidos-PA) e Dom Alberto Taveira Corrêa (Belém-PA), com acusações de abuso sexual e obstrução de investigações internas
Fonte original: Metrópoles São Paulo | Adaptação: Equipe Perus Online



































