Polilaminina: A Febre que Envolveu Governo, Influenciadores e Mudou a Anvisa
Resumo: Medicamento que promete regenerar lesões na medula espinhal virou febre nas redes sociais após campanha de influenciadores e priorização do governo Lula. Laboratório Cristália demitiu profissionais por oferecer pagamento a criadores de conteúdo, enquanto agência de marketing intensificou publicações sobre a molécula ainda em testes.
A polilaminina saiu do anonimato para virar assunto viral em poucos meses. O medicamento, criado pela bióloga Tatiana Sampaio da UFRJ, promete regenerar áreas lesionadas na medula espinhal através de um procedimento cirúrgico único nas primeiras 72 horas após a lesão. Mas o que começou como pesquisa acadêmica se transformou em uma combinação de idealismo científico, estratégia de marketing e priorização política.
Tudo mudou em setembro de 2025, quando o laboratório Cristália organizou uma coletiva de imprensa em São Paulo. A partir daí, as buscas pela palavra “polilaminina” explodiram na internet. O laboratório investiu mais de R$ 110 milhões na pesquisa e obteve autorização da Anvisa para iniciar estudos clínicos que avaliarão se há riscos e efeitos adversos na substância.
O envolvimento do governo foi decisivo. Em outubro, o presidente Lula pediu pessoalmente ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que acelerasse a aprovação na Anvisa. Seis dias depois, Padilha anunciou nas redes sociais que a polilaminina era “esperança na recuperação de lesões medulares” e que o Ministério havia estabelecido “prioridade absoluta” para acompanhar os estudos.
A Anvisa criou um Comitê de Acompanhamento Regulatório da Inovação em Saúde, elegendo a polilaminina como um dos quatro temas estratégicos. O presidente da agência, Leandro Safatle, assinou a portaria em novembro. Em janeiro, quando liberou a primeira etapa do estudo clínico, a Anvisa afirmou que “a aprovação foi priorizada pelo comitê de inovação”.
Mas a história não para por aí. Uma agência de marketing contratada pelo Cristália ofereceu pagamento a influenciadores para divulgar a pesquisa. A proposta pedia “um a dois reels de até 60 segundos e uma sequência de stories” focados no “fortalecimento de credibilidade” e “geração de conversas qualificadas”. O Cristália demitiu os profissionais envolvidos e reestruturou seu departamento de Marketing.
Perfis virais do Instagram intensificaram publicações sobre Tatiana Sampaio em fevereiro, quando as buscas atingiram o pico. Páginas como Alfinetei, Futrikei e outras ligadas à agência DeuBuzz publicaram dezenas de conteúdos praticamente idênticos, repetindo frases semelhantes por semanas. Os perfis Alfinetei e Babadeira sozinhos publicaram 33 conteúdos favoráveis à pesquisa, reunindo 28,1 milhões de seguidores.
A comunidade científica, porém, levanta críticas. O neurologista Delson José da Silva, presidente da Academia Brasileira de Neurologia, alertou: “Muitos remédios usados em animal teriam de funcionar, mas na prática não funcionam. Você não pode gerar uma esperança falsa sem ter o estudo”. Ele também criticou a possibilidade de uso compassivo: “Você faz, e depois filma o paciente andando. Isso não é um estudo”.
A polilaminina ainda não teve sua segurança e eficácia comprovadas. Os testes clínicos estão apenas começando. Enquanto isso, a molécula segue como símbolo de como a internet, o marketing e a política podem transformar uma pesquisa acadêmica em fenômeno viral, mesmo sem resultados concretos.
Destaques da Matéria
- Laboratório Cristália demitiu profissionais por oferecer pagamento a influenciadores para divulgar a polilaminina
- Presidente Lula pediu pessoalmente ao ministro da Saúde para acelerar aprovação na Anvisa
- Anvisa criou comitê especial que priorizou a polilaminina como tema estratégico
- Perfis virais do Instagram publicaram dezenas de conteúdos idênticos sobre a molécula
- Comunidade científica alerta que segurança e eficácia ainda não foram comprovadas
Conteúdo original: UOL TAB | Adaptação: Perus Online






































