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Perus em Alerta: Comunidade Denuncia Fraude em Audiência Pública sobre Incinerador em São Paulo

Perus em Alerta: Comunidade Denuncia Fraude em Audiência Pública sobre Incinerador em São Paulo

A exclusão sistemática de moradores de Perus durante audiência consultiva sobre o projeto URE Bandeirantes revela manipulação coordenada e levanta questões críticas sobre participação democrática na capital paulista. Residentes do bairro periférico foram impedidos de questionar o empreendimento de tratamento de resíduos, enquanto pessoas recrutadas de fora do território ocupavam espaços e influenciavam o debate.

No dia 31 de março de 2026, ônibus chegaram ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus transportando indivíduos desconhecidos pela comunidade local. Estes passageiros formaram filas estratégicas antes dos moradores, lotando o teatro da unidade e se inscrevendo imediatamente para discursar. Testemunhas confirmam que havia um coordenador orientando as reações que deveriam manifestar em cada momento da audiência, simulando concordância ou reprovação conforme necessário.

Um participante contatado pela reportagem revelou ter recebido compensação financeira para comparecer como residente de Perus. O indivíduo explicou trabalhar há três anos em grupos que formam públicos para programas televisivos, especializando-se em criar cenários dramáticos artificiais. Esta revelação expõe a sofisticação da operação de manipulação implementada durante o evento.

A capacidade máxima do teatro foi atingida pelos participantes recrutados, resultando na exclusão de aproximadamente 500 moradores genuínos de Perus. Funcionários municipais e estaduais instalaram televisores no saguão de entrada, mas mesmo assim o espaço não comportou todos. Muitas pessoas, incluindo crianças, permaneceram aguardando sob chuva do lado externo do prédio.

Agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) posicionaram-se em formação armada com escudos e equipamentos de menor potencial ofensivo. A presença ostensiva de segurança criou clima de intimidação, chegando a proibir a fala de vereadores que tentavam participar do debate. A assessoria da prefeitura negou posteriormente o uso de tais equipamentos.

Líderes da comunidade guarani mbya da Terra Indígena do Jaraguá, que historicamente integra a região de Perus desde 1948, conseguiram participar apenas após insistência. Estes representantes indígenas trouxeram perspectivas essenciais sobre os impactos territoriais do projeto.

Destaques do Conhecimento

  • Fraude confirmada: pessoa recebeu dinheiro para simular ser moradora de Perus durante audiência pública
  • Manipulação coordenada: orientador instruía reações dos participantes recrutados em momentos específicos
  • Exclusão massiva: 500 moradores genuínos impedidos de entrar no CEU Perus por lotação provocada
  • Segurança intimidadora: GCM armada com escudos e gás de pimenta proibiu fala de vereadores
  • Projeto URE Bandeirantes: Unidade de Recuperação de Energia da empresa Loga para tratamento de resíduos
  • Alternativa comunitária: moradores propõem Território de Interesse de Cultura e Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera
  • Contexto de desigualdade: Perus registra expectativa de vida de 62 anos conforme Mapa da Desigualdade de São Paulo 2024

Mario Bortoto, engenheiro químico e liderança do movimento de resistência em Perus, enfatiza que tecnologias de incineração são consideradas obsoletas em países desenvolvidos. Além das cinzas tóxicas liberadas pela instalação, a circulação de centenas de caminhões diários pela região periférica agravará problemas de saúde em população já carente de atendimento médico adequado. A falta de recursos humanos em saúde em Perus está intrinsecamente ligada ao preconceito histórico contra a região.

Thais Santos, química e consultora da WWF Brasil, acompanha desde a adolescência as mobilizações comunitárias em Perus. Seu doutorado em Bioenergia foi desenvolvido especificamente para servir aos pares de seu território. Ela lamenta que a audiência, que deveria ser espaço democrático, transformou-se em manipulação de informações. O horário do evento coincidiu deliberadamente com o expediente da classe trabalhadora, dificultando participação de moradores.

A população de Perus já carrega estigma histórico pela Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, utilizada durante a ditadura militar (1964-1985) para ocultar corpos de perseguidos políticos, e pela proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, conhecido por violações sistemáticas de direitos humanos. Adicionar um incinerador reforçaria a lógica de concentrar empreendimentos prejudiciais em territórios periféricos de São Paulo.

Conforme o Mapa da Desigualdade de São Paulo (dados 2024), Perus ocupa posição crítica: expectativa de vida de apenas 62 anos, 5º lugar em cobertura vegetal, 6º em emissão de poluentes atmosféricos por área, e 66º em Pontos de Entrega Voluntária. Estes indicadores revelam a vulnerabilidade ambiental e social do distrito.

Em resposta às denúncias, a Cetesb afirmou que todas as colocações da audiência serão incluídas no processo de licenciamento. A empresa Loga e a prefeitura negaram oferecimento de vantagens e reafirmaram compromisso com transparência, argumentando que as UREs são instalações modernas amplamente utilizadas em áreas residenciais internacionais.

Os moradores de Perus, em São Paulo, continuam mobilizados para organizar sua própria audiência pública e defender o Território de Interesse de Cultura e Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera como alternativa ao incinerador, priorizando a relação sustentável com a natureza sobre lógica predatória de exploração ambiental.


Conteúdo adaptado e reescrito com base em reportagem da Agência Brasil/UOL de 02 de abril de 2026. Imagem de destaque: CEU Perus, local da audiência pública controversa.