Manipulação em Audiência Pública de Perus: Moradores Denunciam Fraude em Processo de Licenciamento de Incinerador em São Paulo
Residentes do distrito de Perus, localizado na zona norte de São Paulo, relatam terem sido impedidos de participar de uma sessão consultiva organizada pela administração municipal e governo estadual para discutir as consequências da instalação de uma unidade de processamento de resíduos. Investigações indicam que indivíduos contratados de outras regiões foram mobilizados para ocupar espaço e silenciar vozes críticas ao empreendimento.
O projeto, formalmente designado como Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é operado pela empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), especializada em gestão de resíduos hospitalares. A documentação técnica é submetida à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para análise e aprovação.
Segundo investigação da Agência Brasil, veículos de transporte coletivo estacionaram nas proximidades do Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, no bairro Vila Fanton, no início da tarde de 1º de abril. Os passageiros, desconhecidos pela população local, formaram filas estratégicas antes dos moradores genuínos, preenchendo rapidamente a capacidade do auditório. Muitos desses indivíduos se inscreveram imediatamente para fazer pronunciamentos, aparentemente com o propósito de monopolizar o tempo de fala e reduzir oportunidades para críticas comunitárias.
Um participante entrevistado sob anonimato confirmou ter recebido compensação financeira para simular ser residente de Perus. O indivíduo revelou trabalhar há aproximadamente três anos em redes de mobilização de público para programas televisivos populares, onde sua função é reagir conforme instruído para criar narrativas dramáticas.
Este mesmo depoente esclareceu que um coordenador presente orientava o grupo sobre quais expressões faciais e gestos adotar em resposta aos diferentes momentos da sessão, simulando apoio ou desaprovação conforme necessário.
Quando o teatro do CEU atingiu sua lotação máxima, aproximadamente 500 residentes foram impedidos de acessar o espaço. Funcionários das esferas municipal e estadual instalaram dois monitores no saguão de entrada, mas mesmo assim o local não comportou todos os presentes, deixando muitas pessoas, incluindo crianças, expostas às intempéries.
Na área externa, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) permaneciam em posição de confronto, equipados com proteção de choque e agentes químicos. Relatos indicam que impediram vereadores de se pronunciarem. A comunicação oficial da prefeitura contestou essas alegações, negando o emprego de equipamentos de controle de multidão.
Após pressão, três lideranças indígenas guarani mbya da Terra Indígena do Jaraguá conseguiram acesso ao interior. O distrito do Jaraguá, originário da região de Perus e estabelecido em 1948, justificava a participação desses representantes na discussão.
Mario Bortoto, engenheiro químico e ativista comunitário, ressalta que consultas públicas dessa natureza são garantidas por legislação. Ele argumenta que a condução inadequada da sessão valida a necessidade de uma audiência alternativa organizada pelos próprios moradores. Os líderes guarani mbya também planejam realizar seu próprio encontro consultivo.
Bortoto aponta que tecnologias de incineração são consideradas obsoletas em contextos internacionais. Além das emissões de resíduos tóxicos, a circulação intensiva de caminhões de transporte representa preocupação significativa. Ele questiona a capacidade da administração municipal em garantir conformidade com padrões ambientais estabelecidos.
O especialista em química ambiental sustenta que a aprovação do projeto agravará condições de saúde em uma população já carente de serviços médicos adequados. A escassez de profissionais de saúde, segundo sua análise, reflete discriminação estrutural contra a região, conectando-se aos estigmas que afetam a imagem de Perus entre paulistanos.
“Profissionais médicos frequentemente recusam atuar em áreas periféricas por questões de segurança ou distância. Enfrentamos um vazio crítico em assistência sanitária. Simultaneamente, há déficit habitacional, com construções aceleradas sem infraestrutura adequada. Educação e equipamentos culturais também sofrem carências. Os desafios que afligem a periferia paulistana se replicam aqui”, comenta Bortoto.
Thais Santos, química e consultora ambiental da WWF Brasil, acompanha as mobilizações comunitárias desde sua juventude. Ela participou de movimentos anteriores que reuniram diferentes segmentos religiosos em defesa territorial. Em declaração à Agência Brasil, Santos explicou que sua trajetória profissional, incluindo doutorado em Bioenergia, foi orientada pela necessidade de contribuir para sua comunidade.
“A sessão deveria representar um espaço de participação democrática. Contudo, o que presenciamos foi distorção sistemática de informações e manipulação do processo consultivo”, lamentou Santos, observando que o horário da audiência coincidiu com o período laboral da maioria dos trabalhadores locais.
Como alternativa ao incinerador, moradores e ambientalistas propõem transformar a área em um Território de Interesse de Cultura e Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera. Essa iniciativa continuaria um modelo já implementado através de uma agência de turismo comunitária, focada em valorizar relações sustentáveis com o ambiente natural e fortalecer a resistência política característica do território.
Historicamente, residentes de Perus enfrentam pressões contínuas de representantes da Loga para aceitar empreendimentos de processamento de resíduos. A comunidade carrega estigmas relacionados à Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, onde foram ocultados corpos de opositores políticos durante o regime militar (1964 em diante), além da proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, notório por violações de direitos humanos.
Conforme o Mapa da Desigualdade da Rede São Paulo (dados 2024, publicado em 2025), a expectativa de vida média em Perus é de 62 anos. Paradoxalmente, o distrito ocupa a 5ª posição em cobertura vegetal, a 6ª em emissão de poluentes atmosféricos por quilômetro quadrado (baseado em deslocamentos de transporte coletivo), e a 66ª em Pontos de Entrega Voluntária de resíduos recicláveis.
Bortoto testemunhou sua comunidade e territórios adjacentes sofrerem pressões para absorver múltiplos empreendimentos de tratamento de resíduos, como o aterro sanitário na Chácara Maria Trindade (distrito de Anhanguera, anos 2000). O aterro sanitário Bandeirantes, inaugurado em 1979 com 140 hectares, operou por 28 anos, recebendo entre 35 e 40 milhões de toneladas de resíduos.
Destaques do Conhecimento
- Fraude documentada em audiência pública de Perus com recrutamento de pessoas de fora da comunidade
- Aproximadamente 500 moradores impedidos de participar por falta de espaço no CEU Perus
- Expectativa de vida em Perus é 62 anos, conforme Mapa da Desigualdade de São Paulo
- Projeto URE Bandeirantes é operado pela empresa Loga e requer aprovação da Cetesb
- Comunidade propõe alternativa: Território de Interesse de Cultura e Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera
- Lideranças indígenas guarani mbya da Terra Indígena do Jaraguá também participam da resistência
- Tecnologia de incineração é considerada obsoleta em contextos internacionais
Fonte/Adaptação: Conteúdo reescrito e adaptado com foco em SEO regional a partir de reportagem original da Agência Brasil, publicada em 02/04/2026 pela Revista Conexão. Imagem: © Rovena Rosa/Agência Brasil.
Caption para Alt Text da Imagem: “Moradores de Perus, São Paulo, em protesto contra fraude em audiência pública sobre incinerador de lixo – Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes”






































