Delação de corretor acusado de lavar dinheiro para o PCC revela tentativa de extorsão de R$ 30 milhões por policiais civis. Vídeo inédito apresenta áudios, documentos e relatos que evidenciam corrupção dentro da investigação policial em São Paulo.
Quatro meses antes de ser executado no Aeroporto de Guarulhos, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach detalhou a promotores do Ministério Público de São Paulo uma suposta tentativa de extorsão praticada por agentes públicos. Na reunião registrada em vídeo, obtida com exclusividade pelo Metrópoles e realizada em 16 de julho de 2024, ele apresentou documentos, áudios e relatos para embasar as denúncias contra o delegado Fábio Baena e o chefe de investigadores Eduardo Monteiro, ambos do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

Segundo Gritzbach, durante sua prisão temporária em fevereiro de 2022, foi levado à sala do delegado Baena, onde lhe foi indicado o advogado Ivelson Saloto. Dias depois, o advogado teria comunicado um pedido milionário: R$ 30 a R$ 40 milhões, sob a justificativa de um suposto pendrive com chaves de acesso a criptomoedas. O corretor negou possuir o dispositivo e o dinheiro.
A pressão não se limitou ao pedido de propina. Gritzbach relatou que policiais retiveram patrimônio seu durante a investigação: um sítio em Biritiba Mirim, na Grande São Paulo, comprado por cerca de R$ 1,5 milhão, e 14 relógios de luxo avaliados em R$ 180 mil. Apenas dez relógios foram devolvidos; os quatro Hublot desaparecidos teriam ficado guardados no armário do chefe de investigadores Eduardo Monteiro.
O corretor afirmou que o contrato do imóvel foi apreendido durante uma busca em sua casa, mas não foi relacionado oficialmente ao inquérito. Também forneceu áudio em que Monteiro supostamente discute a comercialização do sítio. Quanto aos relógios, a devolução ocorreu de forma informal: o delegado Baena os entregou ao advogado Saloto, sem auto de apreensão formal. Gritzbach relatou ainda ter sido procurado por um vendedor informando que seus relógios estavam sendo oferecidos no mercado.
Sob pressão durante a prisão temporária, Gritzbach chegou a autorizar uma oferta menor para evitar a prorrogação da custódia. Ofereceu R$ 2 a R$ 3 milhões de sua conta corrente, mas a resposta atribuída aos policiais foi que nem o pagamento de R$ 30 milhões resolveria, pois já teriam recebido de outras pessoas.
Para o corretor, a acusação sobre a morte de dois membros do PCC — Anselmo Becheli Santa Fausta (Cara Preta) e Antônio Corona Neto (Sem Sangue) — foi usada como moeda de pressão tanto por criminosos quanto por policiais corruptos. Primeiro, foi levado ao tribunal do crime do PCC, onde recebeu sua “absolvição”. Depois, passou a ser alvo de achaques dentro da própria investigação policial.
Meses após detalhar os fatos ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), Gritzbach foi executado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em novembro de 2024. Sua delação se tornou peça central para investigações sobre a infiltração de agentes públicos em esquemas ligados ao crime organizado.
Em 17 de dezembro de 2024, Fábio Baena e Eduardo Monteiro foram presos em operação conjunta da Polícia Federal e do MPSP. Um terceiro policial, Rogério de Almeida Felício (Rogerinho), ficou foragido por seis dias antes de se entregar em Santos. Baena teve a prisão revogada em 31 de março de 2026, por determinação do ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal, sob medidas cautelares como uso de tornozeleira eletrônica, afastamento definitivo das funções públicas e pagamento de fiança de R$ 100 mil.
Destaques do Conhecimento
- Corretor Gritzbach denunciou tentativa de extorsão de R$ 30 a R$ 40 milhões por policiais civis do DHPP
- Delegado Fábio Baena e chefe de investigadores Eduardo Monteiro foram presos em dezembro de 2024 e acusados de corrupção
- Gritzbach apresentou áudios, documentos e relatos comprovando retenção ilegal de patrimônio (sítio e relógios de luxo)
- Delação premiada homologada pela Justiça se tornou central para investigações sobre infiltração de agentes públicos no crime organizado
- Corretor foi executado no Aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024, meses após fazer as denúncias
Fonte original: Metrópoles São Paulo | Adaptação: Equipe Perus Online


































