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Mulher Assume Liderança Histórica da Igreja Anglicana: Primeira Arcebispa em 500 Anos Marca Transformação Global

Sarah Mullally, aos 63 anos, fez história nesta quarta-feira ao se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de arcebispa de Canterbury na Igreja Anglicana. A ex-enfermeira britânica assumiu a liderança espiritual de aproximadamente 85 milhões de anglicanos distribuídos pelo mundo, em uma cerimônia repleta de simbolismo que reuniu figuras de destaque como o príncipe William, sua esposa Kate, e o primeiro-ministro Keir Starmer.

A solenidade ocorreu na histórica Catedral de Canterbury, onde Mullally tomou assento na Cadeira de Santo Agostinho, um móvel do século 13 que representa séculos de tradição religiosa. Diante de dois mil convidados, a nova arcebispa proferiu seu primeiro sermão, utilizando uma mitra dourada e sendo acompanhada por um coral de mulheres que cantavam e dançavam em parte da cerimônia.

Em seu discurso inaugural, Mullally enfatizou a urgência de paz nas regiões devastadas por conflitos armados, mencionando especificamente o Oriente Médio, Ucrânia, Sudão e Mianmar. “Ao iniciar meu ministério hoje como arcebispa de Canterbury, digo novamente a Deus: ‘Eis-me aqui'”, declarou ela à congregação, reafirmando seu compromisso com a missão espiritual.

A nomeação de Mullally marca um ponto de inflexão para a instituição anglicana, que existe há mais de 500 anos. Sua chegada ao cargo mais elevado da Igreja sinaliza transformações profundas na organização, especialmente no que diz respeito à inclusão de mulheres em posições de liderança. O bispo Philip Mounstephen, que a abençoou durante a instalação, descreveu o momento como “uma ocasião histórica” que demonstra “uma enorme mudança que ocorreu na vida da Igreja”.

Contudo, a ascensão de Mullally não ocorreu sem resistência. Um grupo conservador de congregações anglicanas, principalmente de países africanos e asiáticos, conhecido como Gafcon, expressou críticas contundentes à nomeação. Embora o bloco tenha inicialmente planejado estabelecer uma liderança paralela, recuou desses planos neste mês, optando por criar um novo conselho em seu lugar.

A ex-enfermeira também reconheceu publicamente os sofrimentos causados pelas falhas históricas da Igreja em proteger vítimas de abuso sexual, uma questão que levou seu antecessor, Justin Welby, a renunciar ao cargo. Mullally enfatizou a necessidade de “permanecer comprometida com a verdade, a compaixão, a justiça e a ação” ao lidar com essas questões delicadas.

Durante a cerimônia, Mullally utilizou um anel que havia sido presenteado a um de seus antecessores, Michael Ramsey, pelo Papa Paulo VI em 1966. Este objeto simbólico representa a melhoria das relações entre anglicanos e católicos, séculos após o rei Henrique 8º romper com Roma no século 16. A escolha de usar este anel reforça a mensagem de reconciliação e diálogo inter-religioso.

A cerimônia foi marcada por orações e leituras em múltiplos idiomas, incluindo urdu, refletindo o alcance verdadeiramente global da Igreja Anglicana. A data escolhida, quarta-feira, coincidiu com a Festa da Anunciação, uma celebração do relato bíblico sobre o anjo informando Maria que ela seria mãe de Jesus, tema central da solenidade.

As tensões entre cristãos progressistas e conservadores não são exclusivas do anglicanismo, mas o papel do arcebispo é amplamente simbólico e depende de persuasão, diferentemente do Papa, que exerce autoridade clara sobre os católicos em todo o mundo. Um bispo da Igreja Anglicana no Quênia, alinhado ao Gafcon, adotou um tom mais conciliador, afirmando que deseja “argumentar de dentro” para que outras pessoas compreendam as razões das posições conservadoras.

Mullally tem enfatizado a unidade na diversidade, declarando à Reuters em outubro passado: “Somos uma família com uma raiz compartilhada, e em qualquer igreja global há grande diversidade”. Esta abordagem sugere que ela buscará construir pontes entre as diferentes alas da Igreja, apesar das divergências sobre questões como bênçãos a casais do mesmo sexo e liderança feminina.

No início da cerimônia de quarta-feira, Mullally bateu na porta oeste da catedral, vestindo uma capa presa por um fecho inspirado no cinto que usava como enfermeira do Serviço Nacional de Saúde britânico. Ela foi então recebida por crianças, um gesto que simboliza a continuidade entre seu passado de cuidadora e seu novo papel de liderança espiritual.

Destaques do Conhecimento

  • Sarah Mullally é a primeira mulher a ocupar o cargo de arcebispa de Canterbury em mais de 500 anos de história da Igreja Anglicana
  • A cerimônia de posse reuniu figuras de destaque como o príncipe William, Kate Middleton e o primeiro-ministro Keir Starmer
  • Mullally é uma ex-enfermeira de 63 anos que enfatiza a paz global e o combate aos abusos dentro da instituição religiosa
  • O grupo conservador Gafcon, composto principalmente por congregações africanas e asiáticas, expressou resistência à nomeação, mas recuou de planos de criar liderança paralela
  • A nova arcebispa utilizou um anel histórico presenteado pelo Papa Paulo VI em 1966, simbolizando reconciliação entre anglicanos e católicos
  • A Igreja Anglicana possui aproximadamente 85 milhões de fiéis distribuídos globalmente, com tensões entre alas progressistas e conservadoras sobre questões como LGBTQIA+ e liderança feminina

Conteúdo adaptado e reescrito a partir de reportagem original da Folha de S.Paulo / Reuters, publicada em 25 de março de 2026. Imagem: Sarah Mullally durante cerimônia de posse como arcebispa de Canterbury. Crédito: Cleoci Pinheiro reestilizada