Autora de ‘Caderno de Ossos’ revela motivação por trás de narrativa sobre vala de Perus em São Paulo
Julia Codo, escritora do romance de estreia “Caderno de Ossos”, concedeu entrevista ao Estúdio CBN nesta terça-feira (31 de março), data que coincide com os 62 anos do golpe militar brasileiro. Durante o depoimento, a autora explicou os motivos que a levaram a escolher uma narrativa centrada na descoberta de uma vala coletiva no cemitério de Perus, localizado na Zona Norte de São Paulo.
A necessidade de abordar a ditadura militar brasileira foi o ponto de partida para a criação da obra. Publicada em 2025 pela Companhia das Letras, a narrativa foi concebida sete anos antes, em um momento em que Codo percebia “algo não elaborado sobre o passado brasileiro que estava voltando”. O livro acompanha a jornada de uma mulher em busca de sua tia desaparecida, caminho que a conduz até a descoberta de uma vala comum contendo mais de mil sacos plásticos com restos mortais de vítimas do regime autoritário.
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Destaques do Conhecimento
- O romance “Caderno de Ossos” foi escrito em 2018, sete anos antes de sua publicação oficial em 2025
- A vala de Perus, descoberta nos anos 1990, contém mais de mil sacos plásticos com ossadas de desaparecidos políticos
- Julia Codo visitou o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da USP para pesquisa e autenticidade narrativa
- A protagonista do livro não possui nome, enquanto a tia desaparecida (Eva) é nomeada desde o início
- A obra reflete sobre a relação problemática do Brasil com seu passado ditatorial
Codo compartilhou que sua motivação surgiu em 2018, quando observava o retorno de discursos políticos autoritários. “Queria conversar com meu leitor a respeito de uma geração que não viveu a ditadura militar. O livro é narrado do ponto de vista de uma pessoa que passou a infância logo depois do fim da ditadura, na redemocratização, quando havia uma relação estranha com o que tinha acabado de acontecer. Era como se não tivesse acontecido, porque pouco se falava ou se falava como uma coisa que já estava resolvida”, explicou.
A escolha de não nomear a protagonista enquanto mantém o nome de Eva (a tia desaparecida) em destaque desde o início da narrativa carrega significado profundo. “O fato dela não ter nome talvez seja para ressaltar o nome de Eva, que é um corpo que ficou sem nome. Eva é uma pessoa que desapareceu e que não é palpável, porque não há certeza sobre a morte dela, o corpo nunca apareceu, não houve um enterro… É a pessoa que fica voltando como um fantasma”, detalhou a autora.
Para garantir autenticidade à sua ficção, Codo realizou pesquisa aprofundada visitando o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade de São Paulo. Lá, observou as ossadas encontradas na vala comum e compreendeu os procedimentos técnicos do centro. Posteriormente, conversou com o responsável pelo CAAF na época e com uma historiadora especializada. “A partir disso, eu ‘ficcionalizei’, mas ter contato com esses detalhes foi muito importante para a história acontecer”, revelou.
A autora também abordou o histórico de negligência que envolveu as ossadas de Perus. “Aconteceu de tudo com as ossadas. Teve um vai e vem de instituições, muito descaso e negligência de vários governos. Foi ficando em segundo, terceiro, quarto plano… Era uma política de apagamento. Uma parte porque não havia interesse de que essa história fosse revelada, outra por descaso, por acharem que tudo estava no passado”, comentou.
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Em seu primeiro romance, Julia Codo buscou trabalhar especificamente essa “relação ruim que o brasileiro tem com o passado”. Segundo ela, a sociedade brasileira não elabora adequadamente seus traumas históricos. “A gente não elabora nada. A gente vê pessoas defendendo, querendo a volta (da ditadura). Isso acontece por conta da desinformação, mas também porque não tratamos do assunto com a seriedade que deveríamos. Quis escrever o livro para elaborar uma angústia minha. Espero que sirva para os leitores elaborarem também”, finalizou.
Fonte: CBN Globo | Adaptação: Perus Online
Alt Text da Imagem: Julia Codo, autora do romance “Caderno de Ossos”, durante entrevista no Estúdio CBN. Foto: Divulgação/Renato Parada/Companhia das Letras






































