Dinheiro do SUS em SP: Emendas Parlamentares Compram Mais Cadeiras que Equipamentos Médicos
Estudo revela que recursos federais destinados à saúde pública em São Paulo e no Brasil priorizam móveis e computadores em vez de aparelhos clínicos essenciais. Na Zona Noroeste, onde unidades de saúde já enfrentam falta de infraestrutura básica, o problema agrava a crise de atendimento.

Relatório do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) divulgado nesta terça-feira (21) expõe um problema estrutural na forma como o dinheiro público é gasto nas unidades básicas de saúde do país. Das emendas parlamentares destinadas à Atenção Primária em 2025, 65,7% foram utilizados para comprar cadeiras, computadores, ar-condicionados e outros itens de infraestrutura e material de escritório. Equipamentos médicos de baixo custo, como eletrocardiógrafos essenciais para diagnósticos, ficaram com apenas 27,9% dos recursos.
Em valores absolutos, o cenário é ainda mais preocupante. Dos R$ 491 milhões recebidos pelas unidades básicas, R$ 113,9 milhões (23%) foram para infraestrutura, enquanto apenas R$ 58,8 milhões (12%) foram destinados a equipamentos clínicos. A maior fatia, porém, surpreende: R$ 263,5 milhões (54% do total) foram gastos com veículos.
Para quem vive em Perus, Anhanguera ou Jaraguá, essa realidade se traduz em filas mais longas e atendimentos precários. As unidades de saúde da Zona Noroeste já enfrentam superlotação e falta de equipamentos básicos. Com recursos sendo desviados para compras que não impactam diretamente o atendimento, a situação tende a piorar.
Marcella Semente, especialista em relações institucionais do Ieps, aponta que o problema reflete um subfinanciamento crônico do SUS. “A compra de carros consome, sozinha, mais recursos de emendas parlamentares de investimento na Atenção Primária do que qualquer outro tipo de equipamento de saúde propriamente dito”, afirma.
O estudo também revelou desigualdade regional gritante. Entre 2023 e 2025, 70% dos 5.570 municípios brasileiros receberam algum recurso de emenda de investimento em saúde, mas a distribuição foi extremamente desigual. Enquanto Praia Norte (TO) recebeu R$ 1.577 por habitante, Paulista (PE) e Maracanaú (CE) receberam apenas R$ 0,40 per capita. São Paulo, apesar de ser o estado mais rico, não ficou entre os mais beneficiados.
O Centro-Oeste foi o mais favorecido, com 85% de seus municípios recebendo emendas. O Nordeste, historicamente mais dependente de transferências federais, ficou em último lugar, com apenas 59% de seus municípios beneficiados. Essa inversão de lógica sugere que as emendas seguem critérios políticos, não técnicos ou de equidade.
Outro achado preocupante: em cidades pequenas (até 10 mil habitantes), mais emendas por habitante estiveram associadas a maiores gastos com recursos próprios em saúde. Isso indica que o dinheiro federal pode estar sendo usado para fins políticos, não para resolver problemas reais de saúde.
A fatia de recursos destinada a investimentos no SUS também vem encolhendo. Até 2016, 64% de cada R$ 100 em emendas iam para investimento. Em 2024, essa proporção caiu para apenas R$ 10 de cada R$ 100, com a maior parte migrando para despesas correntes de manutenção.
Destaques do Conhecimento
- 65,7% das emendas parlamentares para saúde em 2025 foram gastos com infraestrutura e material de escritório, não com equipamentos médicos
- Veículos consumiram 54% do total investido (R$ 263,5 milhões), mais que qualquer equipamento clínico
- Distribuição regional é desigual: Praia Norte (TO) recebeu 3.942 vezes mais por habitante que Paulista (PE)
- Nordeste, mais dependente de transferências federais, recebeu menos emendas que Centro-Oeste
- Desde 2016, a proporção de investimento em emendas de saúde caiu de 64% para apenas 10% do total
Fonte original: Folha de S.Paulo | Adaptação: Equipe Perus Online






































