Na região da Grande São Paulo, especificamente no bairro da Vila Vivaldi em São Bernardo do Campo, uma iniciativa comunitária revoluciona a forma como as comunidades enfrentam os desafios contemporâneos de segurança alimentar, mudanças climáticas e aquecimento urbano. A horta comunitária, que ocupa um espaço que anteriormente era descartado e negligenciado, representa muito mais que um simples canteiro de cultivo: funciona como um equipamento urbano multifuncional que produz alimentos frescos, abriga encontros de movimentos populares e contribui significativamente para reduzir as temperaturas extremas do entorno, devolvendo à vizinhança um terreno que permaneceu abandonado por anos.
A história dessa transformação começou há 16 anos, quando José Eudes Pinho, conhecido como Profeta, um metalúrgico aposentado, iniciou o trabalho de recuperação de um terreno que era um verdadeiro lixão. Localizado em propriedade da Transpetro, por onde passam tubos subterrâneos de gás e petróleo, o espaço foi gradualmente convertido em um banco genético diversificado, abrigando árvores frutíferas, hortaliças variadas, ervas medicinais e flores ornamentais. Desde o início, o Profeta estabeleceu uma regra fundamental que orienta o lugar até hoje: nada do que ali se colhe é vendido, tudo é doado ou trocado, refletindo uma filosofia de solidariedade e compartilhamento comunitário.
Há aproximadamente dois anos, a continuidade desse trabalho enfrentou uma ameaça significativa quando uma operação de roçagem realizada no local destruiu plantas e apagou memórias cultivadas ao longo de décadas. O estrago poderia ter marcado o fim dessa história, mas transformou-se no início de uma nova etapa de expansão. O coletivo Motyrõ, um grupo organizado em torno de princípios de trabalho horizontal e solidariedade, assumiu a responsabilidade de revitalizar o terreno. Através de negociações com a concessionária e apoio da Transpetro, conseguiram reformar os canteiros e transformar parte do espaço em uma sede social funcional.
A estratégia de cultivo adotada pela Motyrõ vai além das hortaliças convencionais encontradas em supermercados. O coletivo aposta em plantas alimentícias não convencionais, conhecidas como Pancs, que carregam saberes ancestrais, elevado valor nutricional e notável resistência a condições climáticas extremas. A professora Ana Frari, voluntária da horta e responsável pelo projeto Quintal Itinerante, ressignifica o conceito ao chamá-las de “plantas não colonizadas”, devolvendo o nome ao território. Entre essas espécies, a ora-pro-nobis destaca-se por seu alto teor de proteína e capacidade de sobreviver às ondas de calor intenso que caracterizam o clima contemporâneo.
Para a Motyrõ, a horta representa simultaneamente alimento e clima. Em um território dominado por asfalto e concreto, o verde muda a temperatura da rua e transforma o solo. A professora Ana Frari explica que em contextos de emergência climática, com chuvas cada vez mais intensas e volumosas, qualquer pedaço de terra sem impermeabilização torna-se crucial para infiltração de água e prevenção de enchentes. Quando se cultiva, a terra se abre e consegue receber a chuva adequadamente, funcionando como infraestrutura natural de drenagem.
O coletivo transformou o terreno em uma “praça funcional” que combina produção com permanência: oferece sombra para descanso, plantas para colheita e uma agenda que atrai outros grupos do bairro. Recentemente, realizaram cinema na praça e mantêm a porta aberta para novas ocupações culturais e de cuidado comunitário. A intenção é fazer o espaço circular com diversas iniciativas, abraçando propostas de outros coletivos que desejam somar forças.
Além de manter o terreno vivo e disponível para a comunidade, a Motyrõ busca transformar a experiência em política pública. O coletivo pleiteia a criação de uma lei municipal relativa ao meio ambiente que inclua hortas urbanas como medida de mitigação às mudanças climáticas. Enxergam as hortas como complemento aos piscinões de drenagem, argumentando que o poder público deve reconhecer esse papel e investir recursos financeiros para que iniciativas como essa deixem de ser exceção e se tornem infraestrutura de cidade.
A rede de solidariedade que se forma a partir da horta reflete a filosofia do coletivo. O nome Motyrõ vem do radical da palavra mutirão, do tupi, escolhido por sua poesia e conexão com uma ideia de trabalho que não se mede por produtividade e lucro. A organização funciona de maneira horizontal, com frentes que vão do plantio à comunicação, de eventos para levantar fundos à articulação com o poder público. A colheita segue para projetos populares da cidade, em especial o Meninos e Meninas de Rua, que atua com crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade.
Destaques do Conhecimento
- Horta comunitária em São Bernardo do Campo transforma terreno abandonado em solução multifuncional para segurança alimentar e mitigação climática
- Plantas não convencionais (Pancs) como ora-pro-nobis oferecem proteína e resistência a ondas de calor extremo
- Infraestrutura verde funciona como drenagem natural, prevenindo enchentes em contexto de emergência climática
- Coletivo Motyrõ busca transformar experiência em política pública municipal para hortas urbanas
- Modelo de trabalho horizontal e solidariedade distribui alimentos para projetos populares sem fins lucrativos
Fonte original: ICL Notícias | Adaptação: Perus Online
Caption: Horta comunitária na Vila Vivaldi, São Bernardo do Campo, com plantas alimentícias não convencionais e espaço de convivência comunitária para combate à fome e ao calor extremo na Grande São Paulo






































