Escândalo envolvendo financiamento de filme sobre Bolsonaro coloca Flávio em xeque na corrida presidencial. Banqueiro preso por fraude de R$ 50 bilhões financiou produção cinematográfica em plena campanha eleitoral.
A revelação de áudios e mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro transformou um negócio privado de cinema em bomba política. O caso expõe como recursos de um dos maiores esquemas de fraude financeira do país terminaram canalizados para uma produção cinematográfica que pretendia impulsionar a candidatura presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Os diálogos captados pela Polícia Federal mostram Flávio cobrando pessoalmente o ex-banqueiro por parcelas atrasadas do contrato. Em setembro de 2025, o senador enviou áudio dizendo estar “tenso” com atrasos no pagamento, citando a importância do momento para o filme. Meses depois, quando Vorcaro enfrentava prisão iminente, Flávio reforçou a aproximação com mensagens de apoio incondicional.
O financiamento total negociado chegou a 134 milhões de reais, mas apenas 61 milhões foram efetivamente desembolsados antes da instituição financeira entrar em colapso. O dinheiro teria sido transferido através de uma empresa sediada no Texas, estado onde reside Eduardo Bolsonaro, irmão do senador.

O longa-metragem intitulado “Dark Horse” (Azarão) apresenta o ex-presidente como um outsider que enfrenta um establishment corrupto. A ironia é que o financiamento veio justamente de um banqueiro acusado de ser parte desse establishment que o filme pretende denunciar. A produção conta com o ator americano Jim Caviezel no papel principal.
Flávio tentou se defender argumentando que buscou patrocínio privado para um filme privado, sem uso de dinheiro público ou Lei Rouanet. Porém, a origem dos recursos — de um banco que cometeu fraudes bilionárias — transformou a transação em questão de segurança institucional e transparência política.

A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal sob supervisão do ministro André Mendonça, investiga quais ações de Vorcaro constituem crimes como corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. O financiamento do filme passará pelo mesmo escrutínio que examina outras transações do ex-banqueiro com autoridades dos Três Poderes.
O escândalo não se limita à família Bolsonaro. Investigações revelaram que Vorcaro também financiou o documentário “Lula”, de Oliver Stone, e o filme “963 Dias — A História de um Presidente que Recolocou o Brasil nos Trilhos”, sobre Michel Temer. O produtor executivo do filme sobre Temer confirmou doação de 1 milhão de reais em 2023, com cláusula de confidencialidade que mantinha Vorcaro fora dos créditos oficiais.

A investigação também apura se o dinheiro destinado ao filme terminou em contas de Eduardo Bolsonaro, que reside nos EUA. A transferência através de empresa sediada no Texas levanta questões sobre possível ocultação de origem dos recursos.
A revelação provocou racha entre candidatos presidenciáveis da direita. Romeu Zema (Novo) chamou o pedido de Flávio de “imperdoável” e “um tapa na cara dos brasileiros”. Ronaldo Caiado (PSD) adotou tom mais brando, mas também exigiu transparência. Eduardo Bolsonaro contra-atacou Zema lembrando que o Master havia doado 1 milhão de reais para a campanha do ex-governador.

O governo Lula rebateu as críticas de Flávio argumentando que a instituição foi liquidada pelo Banco Central e está sendo esquadrinhada pela PF. A gestão petista também destacou que não houve pedido presidencial para financiar o documentário de Oliver Stone.
Na quinta-feira 14 de maio, em nova fase da operação, a Polícia Federal prendeu Henrique Vorcaro, pai de Daniel, apontado como beneficiário do esquema de fraudes. Também foram capturados integrantes de um grupo acusado de espionagem, invasão de sistemas e perseguição de adversários do banqueiro.

O caso não é inédito. Em 2010, o filme “Lula, o Filho do Brasil” recebeu patrocínio de dezoito empresas, incluindo três empreiteiras envolvidas na Lava-Jato: Camargo Corrêa, OAS e Odebrecht. Marcelo Odebrecht entregou à Justiça comprovantes de pagamento de 250 mil reais à produção, além de e-mails de executivos mencionando demanda de 1 milhão de reais para “apoiar o filme de interesse do nosso cliente”.
Especialistas apontam que Lula já tem vaga garantida no segundo turno da próxima eleição. Caiado e Zema tentarão chegar lá tomando o lugar de Flávio Bolsonaro, que agora enfrenta constrangimento político pela proximidade com o escândalo do Banco Master.
Destaques do Conhecimento
- Flávio Bolsonaro cobrou pessoalmente do ex-banqueiro Daniel Vorcaro parcelas atrasadas de financiamento para filme sobre Jair Bolsonaro, conforme áudios revelados pelo Intercept
- Vorcaro transferiu 61 milhões de reais (de 134 negociados) para produção do filme “Dark Horse” através de empresa sediada no Texas, onde reside Eduardo Bolsonaro
- Investigação apura se recursos também financiaram documentário de Oliver Stone sobre Lula e filme sobre Michel Temer, com cláusulas de confidencialidade que ocultavam origem dos fundos
- Operação Compliance Zero examina transações de Vorcaro com autoridades dos Três Poderes para identificar crimes de corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro
- Revelação provocou racha entre candidatos presidenciáveis da direita, com Romeu Zema criticando Flávio enquanto Eduardo Bolsonaro rebate lembrando doações do Master a Zema
Fonte original: VEJA | Adaptação: Equipe Perus Online







































