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Parque da Água Branca: Transformações Profundas Após Concessão Privada Afetam Espaço Público

Após três anos de concessão à iniciativa privada, o Parque da Água Branca passa por transformações que descaracterizam sua função pública. Eventos comerciais ocupam metade do ano, áreas protegidas são alugadas e equipamentos históricos foram removidos ou fechados.

Localizado na Zona Oeste de São Paulo, o Parque da Água Branca representa um caso emblemático de como concessões de espaços públicos podem alterar radicalmente a experiência coletiva. Desde 2022, quando foi entregue à Reserva Novos Parques Urbanos por 30 anos (junto com Villa-Lobos e Cândido Portinari), o parque vem sofrendo mudanças que geram críticas de frequentadores, ambientalistas e órgãos de preservação.

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Parque da Água Branca: espaço público transformado em modelo de negócios com múltiplas ocupações comerciais | Foto: William Cardoso/Metrópoles

Ocupação Comercial Contínua

O evento Casacor, principal mostra de decoração do país, ocupa o parque de março a setembro—metade do ano. Estruturas temporárias avançam sobre áreas de proteção permanente (APP), deslocando atividades tradicionais como a academia ao ar livre. A concessionária recebeu multa de R$ 899 mil em 2024 por exibir veículo de marca automotiva sem autorização, valor que ainda não foi pago e pode ser convertido em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

A Fazenda Churrascada, caracterizada como evento temporário de seis meses, possui contrato de 54 meses com a concessionária—transformando-a, na prática, em ocupação permanente. Críticos apontam que a lógica é idêntica à de um shopping center: aluguel de espaço para marcas e serviços, não gestão de bem público.

Patrimônio Histórico Descaracterizado

O Museu Geológico (Mugeo), que funcionava no parque há décadas, foi removido em 2022 e transferido como reserva técnica para o Instituto Biológico, na Vila Mariana, sem acesso público. O prédio que o abrigava agora funciona como escritório permanente da Casacor. O Aquário permanece fechado há quase quatro anos, assim como o bosque de leitura. Tapumes cobrem grande parte das atrações.

A escadaria do imóvel principal segue interditada, aguardando aprovação de órgãos de patrimônio para restauro. Segundo a concessionária, o processo está em trâmite, mas críticos questionam por que a Casacor não realizou as reformas necessárias.

Impacto na Equoterapia e Bem-Estar Animal

Atividades de equoterapia, desenvolvidas por organização não governamental em parceria com a Secretaria Estadual do Deficiente, sofrem com barulho, circulação de carrinhos e iluminação intensa durante montagem e desmontagem de eventos. Pais de crianças participantes temem acidentes com os cavalos.

As aves do parque foram confinadas em espaços zootécnicos sob alegação de risco de gripe aviária. Antes, circulavam livremente—mais de 2 mil galos, galinhas, patos, gansos e pavões. A concessionária argumenta que o confinamento garante controle sanitário e bem-estar, mas frequentadores apontam descaracterização do espaço.

Atividades Tradicionais em Risco

A Feira de Orgânicos e o Baile da Terceira Idade, tradições do parque, enfrentam pressão de realocação. Embora a concessionária negue intenção de removê-las, críticos apontam que a Fazenda Churrascada pretende utilizar a área da feira e que o baile seria deslocado para evitar vazamento de som para a churrascaria. A concessionária afirma que as requalificações visam melhorar infraestrutura e acessibilidade.

Ações Judiciais e Investigações

Uma ação civil pública questiona a instalação da Casacor em 2025, alegando falta de licenças ambientais, urbanísticas e patrimoniais. O advogado Roberto Cosso, que acompanha o caso, afirma que há supressão de vegetação nativa, instalação de estruturas em APP, cercamento de áreas públicas e funcionamento em horários irregulares.

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) anunciou investigação sobre as concessões dos parques Villa-Lobos e Cândido Portinari, ambos sob responsabilidade da Reserva. Na última quarta-feira (20/5), a juíza Larissa Kruger Vatzco determinou que prefeitura e concessionária informem sobre a assinatura de TAC e se estudo histórico do paisagismo foi iniciado.

Posição da Concessionária

A Reserva nega que o parque foi “loteado” e afirma que implementa modelo de gestão previsto no contrato, com diferentes usos compatíveis com a vocação histórica, cultural e ambiental do espaço. Segundo a empresa, a concessão não transfere titularidade, não privatiza áreas e não altera função coletiva. Índice de satisfação de 90% entre frequentadores, segundo auditoria independente, é citado como evidência de aprovação.

Reflexos na Zona Noroeste

Embora o Parque da Água Branca localize-se na Zona Oeste, seu modelo de concessão estabelece precedente para outras áreas verdes da região. Moradores de Perus, Jaraguá e Anhanguera acompanham o caso com preocupação, temendo que espaços públicos em suas comunidades sofram transformações similares. A Linha 7-Rubi da CPTM, que conecta a região ao centro, facilita acesso ao parque, tornando-o referência de lazer para a população noroeste.

Destaques do Conhecimento

  • Parque da Água Branca foi concedido à Reserva Novos Parques Urbanos por 30 anos, junto com Villa-Lobos e Cândido Portinari, por pouco mais de R$ 60 milhões.
  • Casacor ocupa o parque de março a setembro (metade do ano), com estruturas em áreas de proteção permanente; concessionária recebeu multa de R$ 899 mil por irregularidades.
  • Museu Geológico foi removido e transformado em reserva técnica sem acesso público; prédio agora funciona como escritório da Casacor.
  • Atividades tradicionais como Feira de Orgânicos e Baile da Terceira Idade enfrentam pressão de realocação; equoterapia sofre com barulho e obras contínuas.
  • MPSP investiga concessões de parques estaduais; ação civil pública questiona licenças da Casacor; juíza determinou informações sobre TAC e estudo paisagístico.

Fonte original: Metrópoles São Paulo | Adaptação: Equipe Perus Online