Campo de Marte em São Paulo: Reduto da Várzea Enfrenta Risco de Extinção com Demolições
Resumo: O Complexo Esportivo do Campo de Marte, tradicional reduto do futebol de várzea na zona norte de São Paulo, sofre demolições após decisão judicial para construção de parque. Clubes históricos como Cruz da Esperança temem perder autonomia e identidade cultural do espaço que há mais de 40 anos abriga equipes de várzea, samba e comunidade.
O Complexo Esportivo de Lazer e Cidadania do Campo de Marte, localizado próximo à avenida Braz Leme na zona norte de São Paulo, vive um período crítico de incerteza. Após decisão da Justiça que autorizou demolições no local para a construção de um parque, os ocupantes contestam a ação e temem perder a autonomia sobre um espaço que, por mais de 40 anos, serviu como berço do futebol de várzea e da cultura local.
A área de 385 mil metros quadrados foi estruturada na década de 1960 e consolidou-se como um dos principais polos da várzea na capital paulista. Tradicionais equipes como Cruz da Esperança, SADE, Pitangueiras, Paulista e Baruel, além do campo Aliança, marcado pela relação com o futebol feminino, encontraram ali seu espaço de atuação e identidade comunitária.
Em 2025, a prefeitura assinou contrato para criação do Parque Campo de Marte. Após licitação, a administração ficaria a cargo da Concessionária Campo de Marte, que possui os mesmos acionistas da Allegra, hoje à frente do Pacaembu. No dia 10 de fevereiro, a Justiça autorizou as demolições no local.
O acordo entre os novos administradores e a associação de mantenedores dos clubes prevê a construção de cinco novos campos. Entretanto, sem a preservação de suas sedes e estruturas culturais, as equipes passaram a resistir à ideia, pois consideram a várzea um espaço de identidade cultural que vai muito além do futebol.
Um dos seis campos que compõem o complexo, o Aliança veio abaixo no dia 12 de março. Administrado desde 2002 por Soraya Marks, era o único campo gerido por uma mulher no complexo. O espaço recebia cerca de mil pessoas nos fins de semana e era referência para o futebol feminino amador, tendo sediado edições do “Maior Festival de Futebol Feminino do Mundo”, iniciado em 2019, com mais de 100 equipes e cerca de 800 atletas.
Soraya investiu seus esforços na manutenção do local, que além de jogos, abrigava um parquinho e uma lanchonete. Com tamanho envolvimento, ela construiu sua casa e passou a morar no complexo. Hoje, sem o campo, perdeu sua principal fonte de renda e vive com auxílio de R$ 400 e doações.
O Cruz da Esperança, fundado por um grupo de taxistas pretos em 1958, se tornou símbolo não apenas do futebol de várzea, mas também da cultura local, com rodas de samba que chegam a reunir até 1,5 mil pessoas. A união entre música e futebol sempre atraiu personagens marcantes ao local, como Serginho Chulapa, ídolo de São Paulo e Santos, e Basílio, ídolo do Corinthians e autor do gol do título do Paulistão de 1977.
Durante as negociações, dirigentes do Cruz da Esperança decidiram deixar a associação após serem informados de que o clube não poderia manter seus eventos de samba. O presidente do clube, Antonio de Jesus Marques (Toninho), afirma que a prefeitura não considerou a importância de outras atividades para o espaço, como capoeira e eventos culturais que movimentam a comunidade.
Na sexta-feira, a Justiça autorizou a reintegração de posse do espaço ocupado pelo Cruz da Esperança, com uso de força policial e demolição de estruturas. O clube recorreu da decisão, e a Justiça concedeu mais 60 dias para a desocupação do local.
Com mais de 23 mil assinaturas, um abaixo-assinado tenta barrar as mudanças. Enquanto isso, moradores e frequentadores veem desaparecer um espaço que, por décadas, uniu futebol, cultura e comunidade na zona norte de São Paulo.
Destaques da Matéria
- Campo de Marte sofre demolições para construção de parque, ameaçando tradição de 40 anos do futebol de várzea em São Paulo
- Soraya Marks, única mulher gestora de campo no complexo, perdeu sua casa e fonte de renda com demolição do Aliança
- Cruz da Esperança, fundado em 1958, abandona negociações após proibição de eventos de samba no futuro parque
- Abaixo-assinado com 23 mil assinaturas tenta barrar as mudanças e preservar identidade cultural do espaço
Conteúdo original: ge.globo | Adaptação: Perus Online
Caption: Soraya Marks, gestora do campo Aliança, em frente aos escombros do espaço que administrou por mais de 20 anos e que foi demolido para dar lugar ao Parque Campo de Marte na zona norte de São Paulo.







































