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Denúncia de Manipulação em Audiência Pública de Perus, São Paulo: Moradores Acusam Fraude em Consulta sobre Incinerador

Denúncia de Manipulação em Audiência Pública de Perus, São Paulo: Moradores Acusam Fraude em Consulta sobre Incinerador

Residentes do distrito de Perus, localizado na zona norte de São Paulo, relatam terem sido impedidos de participar de uma sessão consultiva organizada pela administração municipal e governo estadual. O encontro tinha como propósito discutir as consequências ambientais e sociais da construção de uma unidade de processamento energético de resíduos. Segundo denúncias, houve contratação de indivíduos externos à região para desarticular a mobilização comunitária contrária ao empreendimento.

O projeto, designado oficialmente como Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é operado pela Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), especializada em gestão de resíduos hospitalares. A empresa encaminha toda a documentação técnica à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para análise e aprovação.

Investigações revelaram que ônibus chegaram ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, na região de Vila Fanton, transportando pessoas desconhecidas pela comunidade local. Esses indivíduos formaram filas prioritárias antes dos moradores, preencheram rapidamente o espaço disponível e se inscreveram para fazer pronunciamentos. O objetivo aparente era impedir que os residentes genuínos pudessem expressar suas preocupações e críticas durante o evento.

Um participante que aceitou falar sob anonimato confirmou ter recebido compensação financeira para comparecer como se fosse habitante de Perus. Essa pessoa revelou trabalhar há aproximadamente três anos em grupos de mobilização de público para programas televisivos populares, incluindo aqueles que dramatizam conflitos familiares.

O depoente esclareceu ainda que havia um coordenador responsável por instruir o grupo sobre quais reações demonstrar em diferentes momentos da audiência, simulando apoio ou desaprovação conforme necessário.

Quando o teatro do CEU atingiu sua capacidade máxima, aproximadamente 500 moradores foram impedidos de entrar. Servidores públicos municipais e estaduais instalaram dois monitores na antessala, mas mesmo assim o espaço mostrou-se insuficiente, deixando muitas pessoas, inclusive crianças, expostas à chuva do lado de fora.

Na área externa, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) permaneciam em posição de confronto, equipados com escudos e agentes químicos. Relatos indicam que impediram vereadores de se pronunciarem. A assessoria da prefeitura contestou essas alegações, negando o emprego de equipamentos de controle de multidão.

Apenas após pressão, três representantes da comunidade guarani mbya, originária da Terra Indígena do Jaraguá, conseguiram acesso ao interior do auditório. O distrito do Jaraguá, criado em 1948, originou-se da região de Perus, justificando o interesse dos indígenas em participar da discussão.

Mario Bortoto, engenheiro químico e uma das principais vozes do movimento de oposição, ressalta que consultas públicas são direitos garantidos por lei. Ele argumenta que a forma como o evento foi conduzido valida a necessidade de uma audiência alternativa organizada pelos próprios moradores. Os líderes guarani mbya também planejam realizar sua própria sessão de discussão.

Bortoto aponta que tecnologias similares são consideradas obsoletas em nações desenvolvidas. Além das emissões tóxicas geradas pela unidade, ele destaca a preocupação com o intenso fluxo de caminhões que circulará pela região. Na avaliação do especialista, a administração municipal carece de capacidade para monitorar adequadamente o cumprimento dos padrões ambientais estabelecidos.

O profissional argumenta que a aprovação do projeto resultará em agravamento dos problemas de saúde pública em uma população já carente de atendimento médico adequado. A escassez de profissionais de saúde, segundo ele, reflete preconceito estrutural contra a região, conectando-se aos estigmas que cercam Perus entre os paulistanos.

Thais Santos, química e consultora ambiental da WWF Brasil, é outra liderança mobilizada. Desde sua juventude, ela acompanha as lutas comunitárias que reuniram até mesmo grupos religiosos distintos em defesa do território. Em declaração, ela explicou que a necessidade de resistência motivou sua trajetória profissional, incluindo seu doutorado em Bioenergia, desenvolvido com o propósito de contribuir para sua comunidade.

Santos lamenta que o espaço deveria ter funcionado como fórum democrático, mas funcionou como instrumento de manipulação informativa. Ela também observa que o horário escolhido coincide com o período laboral da maioria dos residentes, predominantemente trabalhadores de baixa renda.

Como alternativa ao incinerador, os moradores e ambientalistas aliados propõem transformar a área em um Território de Interesse de Cultura e Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera. Essa iniciativa seguiria o modelo já implementado através de uma agência de turismo comunitária, focada em valorizar a relação harmoniosa com o ambiente natural e rejeitar lógicas exploratórias. Essa proposta reflete a resistência política que marca historicamente o distrito.

Representantes da Loga têm procurado sistematicamente os habitantes de Perus para conquistar apoio ao projeto. A comunidade local já carrega estigmas históricos, incluindo a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, onde foram ocultados corpos de opositores políticos durante o regime militar iniciado em 1964, além da proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery, conhecido por graves violações de direitos humanos.

Conforme o Mapa da Desigualdade elaborado pela Rede São Paulo com dados de 2024, a expectativa de vida média em Perus é de apenas 62 anos. Simultaneamente, o distrito ocupa a 5ª posição em cobertura vegetal, a 6ª em emissão de poluentes atmosféricos por quilômetro quadrado (baseado em deslocamentos de transporte coletivo), e a 66ª em disponibilidade de Pontos de Entrega Voluntária de resíduos recicláveis.

Bortoto testemunhou sua comunidade e regiões adjacentes enfrentarem pressões para aceitar diversos empreendimentos de disposição de resíduos. Em 1979, foi inaugurado o aterro sanitário Bandeirantes, com 140 hectares de extensão, que permaneceu operacional por 28 anos, recebendo entre 35 e 40 milhões de toneladas de resíduos durante esse período.

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou que todas as manifestações apresentadas na audiência serão incorporadas ao processo de licenciamento ambiental e consideradas na análise técnica. O procedimento segue os protocolos legais estabelecidos, baseando-se no Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) submetidos pela empresa responsável.

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do estado de São Paulo, em conjunto com a Loga, esclareceu que as UREs não devem ser confundidas com incineradores tradicionais dos anos 1970 e 1980. Trata-se de instalações contemporâneas que, segundo a empresa, não representam riscos à saúde populacional e são amplamente empregadas em zonas residenciais em diversos países.

A URE Bandeirantes integrará o Ecoparque Bandeirantes, com objetivo de reduzir o volume de resíduos destinados a aterros sanitários, gerar energia elétrica, criar postos de trabalho e fortalecer a proteção ambiental. A unidade terá capacidade para processar até mil toneladas de resíduos diariamente, recuperando aproximadamente 64% do material e encaminhando 36% para aterros externos.

Destaques do Conhecimento

  • Moradores de Perus, São Paulo, denunciam fraude em audiência pública sobre incinerador de resíduos
  • Investigações confirmam contratação de pessoas de fora da região para desarticular a mobilização comunitária
  • Aproximadamente 500 residentes foram impedidos de participar do evento por falta de espaço
  • Lideranças locais propõem alternativa: transformar a área em Território de Interesse de Cultura e Paisagem
  • Perus enfrenta desigualdades estruturais, com expectativa de vida de apenas 62 anos segundo Mapa da Desigualdade
  • Projeto URE Bandeirantes é operado pela Loga e aguarda análise técnica da Cetesb
  • Comunidade guarani mbya também participa da mobilização contra o empreendimento

Fonte adaptada: Agência Brasil / UOL Notícias | Adaptação e reescrita: Perus Online | Data de publicação original: 02 de abril de 2026

Alt Text da Imagem: Moradores de Perus, São Paulo, durante protesto contra fraude em audiência pública sobre implantação de incinerador de resíduos no bairro