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sábado 7 março 2026 | 21:26

Amazônia enfrenta escalada inédita de temperaturas extremas em áreas preservadas

**Amazônia enfrenta escalada inédita de temperaturas extremas em áreas preservadas**
Estudo mostra que mudanças climáticas colocam em risco mesmo áreas de floresta sem desmatamento
03/10/2025 | 05h00
**Por Giovana Girardi — Agência Pública**
Em setembro do ano passado, o biólogo Cássio Alencar Nunes foi surpreendido ao sair para uma pesquisa de campo no Parque Nacional do Jaú, no estado do Amazonas. Seu objetivo era gravar os cantos de aves para estimar o tamanho da população de algumas espécies.
Logo cedo, então, ele e colegas já estavam de gravador em punho no meio do parque. Mas às 7h, em vez de ouvir a algazarra tradicional da floresta ao amanhecer, o que eles escutaram foi o silêncio. Nada de pássaros, nem insetos, nem nada.
Ao medir a temperatura do local, ele encontrou uma possível explicação: temperaturas acima de 30 °C, incomuns para o horário (o normal seria entre 24 °C e 25 °C). “A gente se assustou. Tava muito silêncio mesmo, muito diferente. Os bichos deviam estar realmente estressados com aquele calor, com aquela seca”, contou à Agência Pública.
O pesquisador tinha planejado sua expedição para meados do mês de setembro, contando que a temporada seca naquela região já estaria terminando, com a chegada das primeiras chuvas, o que faria com que os passarinhos estivessem mais ativos. Mas no ano passado, o clima na Amazônia foi totalmente atípico.
Uma seca histórica e prolongada, com temperaturas bem mais elevadas que o normal, levou a um recorde de queimadas. Para toda a Amazônia, foi o segundo ano consecutivo de seca extrema — um quadro agravado pelas mudanças climáticas, segundo análises científicas.
Diversas pesquisas lançadas nos últimos anos vêm alertando que a combinação de desmatamento com o aquecimento global tem deixado a Amazônia, uma floresta tropical úmida, muito mais inflamável. Mas um novo estudo, ao qual a Pública teve acesso antecipado, mostra que a mudança do clima está fragilizando até mesmo locais onde a floresta ainda está bastante preservada.
**Amazônia aquece duas vezes mais rápido nas temperaturas extremas do que na média global**
Particularmente a região onde Nunes tentava escutar os pássaros, no centro-norte da Amazônia, enfrenta uma escalada inédita de temperaturas extremas. É o que mostra a pesquisa realizada por um grupo de 53 cientistas do Brasil e do exterior que avaliou a evolução das temperaturas e de índices como a secura do ar e o déficit de água da floresta em toda a bacia amazônica entre 1981 e 2023.
O trabalho, financiado pelo WWF, aponta que os impactos do aquecimento global podem ser mais bem observados quando se olha para as ocorrências de extremos de temperatura na Amazônia, que cresceram mais rapidamente que o padrão médio de aumento da temperatura — normalmente o indicador mais considerado em estudos sobre a Amazônia.
No caso da Amazônia, “períodos recentes excepcionalmente quentes e secos levaram a incêndios florestais sem precedentes, à mortalidade em larga escala de árvores, à mortalidade localizada de animais e a impactos negativos para o acesso humano a serviços e saúde”, escrevem os pesquisadores, que compõem a Rede Amazônia Sustentável.
E é nesses extremos que mora o perigo. O grupo observou que enquanto a temperatura média na Amazônia subiu no mesmo ritmo observado globalmente, de 0,21 °C por década desde os anos 1980, as temperaturas extremas subiram muito mais: 0,5 °C por década, ou cerca de 2 °C nesse período de 43 anos.
Os cientistas dividiram o mapa da bacia amazônica em quase 58 mil células e analisaram múltiplas variáveis climáticas. A análise confirmou que a temperatura média subiu mais no sul da Amazônia, mas descobriu que as temperaturas extremas tiveram maior taxa de crescimento no centro-norte, em uma grande faixa que vai do centro do Amazonas a Roraima.
Nessa área, que corresponde a 10% de toda a Amazônia, as temperaturas extremas subiram 0,77 °C por década no período mais seco — mais de 3,3 °C em 43 anos. É um alerta de que, mesmo onde não há desmatamento, a Amazônia está em risco por causa das mudanças climáticas.
**Mudanças pedem políticas públicas além do combate ao desmatamento**
“O que nosso trabalho mostra é que não é apenas com o sul da Amazônia que a gente tem de se preocupar. O foco nessa região é válido, por causa do grande desmatamento que ela já sofreu, mas vimos que o norte também está frágil, está mudando muito rapidamente e talvez não esteja adaptado para esse nível de calor e de seca”, diz Jos Barlow, um dos líderes do estudo.
Os autores apontam que ainda são necessárias mais investigações para entender por que essa área específica do centro-norte está experimentando as maiores taxas de aumento de temperaturas extremas. Mas afirmam que já é preciso pensar políticas públicas que levem em conta que “a mudança climática na Amazônia não é nem gradual, nem homogênea”.
O estudo reforça a necessidade urgente de reduções rápidas nas emissões de gases de efeito estufa e que os países com altas emissões devem contribuir para intervenções de adaptação e conservação em regiões de florestas tropicais.
**Impedir ocorrência do fogo se torna prioridade**
O aumento das temperaturas e a consequente perda da umidade do ar têm deixado a floresta muito mais inflamável. Os dois últimos anos tiveram incêndios extensos e severos, sendo que, em 2024, a Amazônia bateu o recorde de área queimada desde 1985.
Foram 15,6 milhões de hectares queimados, área 117% superior à média histórica. Pela primeira vez, o que mais queimou na Amazônia foram as florestas mesmo — vegetação em pé (43% do total).
Como estuda o comportamento do fogo, a pesquisadora Érika Berenguer ressalta que o cenário de aquecimento global traz novas dificuldades: “Infelizmente, não é mais o bastante combater só o desmatamento. As políticas públicas têm que mudar. Porque o mundo mudou”.
Para preservar a Amazônia, é essencial diminuir as emissões de gases de efeito estufa de todo o mundo, mas internamente também é importante focar em estratégias de adaptação para aumentar a resiliência das regiões já afetadas.